Jorge Fernandes
Há vários argumentos que são utilizados para a não aplicação da Lei divina no governo civil. Alguns alegam que o Estado é laico e, portanto, não tem de ter vínculo algum com religião alguma. Essa é uma grande conversa fiada, pois o Estado, a despeito de se dizer laico, age de maneira antireligiosa, como se fosse possível governar neutra e isentamente. O fato é que o Estado não é neutro, nem isento, e ao agir antireligosamente, em especial com relação ao Cristianismo, demonstra sua parcialidade, e o que é pior, uma autosuficiência que o coloca no lugar de Deus, como um ídolo, do qual até mesmo cristãos são adoradores. Vão dizer que não, o que simplesmente acontece é uma separação entre religião e Estado, mas, pergunto: quem autorizou essa separação? Em quais pressupostos ela aconteceu? Quem é o seu beneficiário?
Ao se fazer a separação arbitrária entre religião e Estado está-se tentando separar Deus do seu governo, como se fosse algo possível. Na verdade, o que existe é uma rejeição completa e total a qualquer idéia de Deus, mais detidamente o Deus bíblico, absoluto e Senhor de tudo o que foi criado e há no universo; e dessa forma o homem se considera autônomo, dono do seu nariz, independente de qualquer influência e autoridade divina. Quando o homem natural alega a “separação”, está a pensar e fazer algo que lhe é inerente, em sua corrupção, em seu senso moral caído, em seu prazer no pecado, ainda que esteja a dizer que não. Mas o que levaria um cristão a defender tal coisa? Ignorância, má-interpretação ou uma fé distorcida? Pode-se alegar que a história nos revela a nefasta ligação entre religião e Estado. Pode-se alegar que essa união nunca deu certo, e de que a “separação” é o melhor. O exemplo seria a teocracia islâmica, diria um defensor do laicismo. Mas pode o islamismo ser padrão moral e ético para um cristão? O próprio fato dos países islâmicos não serem cristãos, nem se pautarem na lei divina, já revela que seus princípios e premissas são falsos e o governo em si mesmo é falso e culpado em sua ilegalidade. Por ser uma mentira, um embuste, não pode ser parâmetro para um governo levado à cabo pela legitimidade da lei divina. Da mesma forma, o catolicismo não pode servir de medida comparativa. Assim como qualquer governo que se abstenha da lei para se livrar de Deus.
Apelar também para o efeito noético do pecado parece-me uma válvula de escape que não livra o homem de sua responsabilidade. Seria o mesmo que um ladrão justificar o seu crime porque não conseguiu resistir a possuir o objeto do furto. O objetivo é garantir a impossibilidade de aplicar-se a lei, não porque ela falha em alguma coisa; não porque ela não é o padrão verdadeiro de justiça; não porque haja algo melhor que ela; não que seja imperfeita em algum aspecto; mas porque somos incapazes de torná-la apropriada e eficaz em sua praticabilidade. Em linhas gerais, fazemos como os fariseus que ao tentarem se mostrar inocentes em relação aos seus pais que derramaram o sangue dos profetas, acabaram por encher as medidas deles, testificando serem filhos de assassinos [Mt 23.30-32]. Ao acusarmos aqueles que não foram capazes de governar adequadamente segundo o padrão divino, justificando assim a nossa própria incapacidade, enchemos as medidas deles ao nos tornarmos herdeiros do seu legado não-bíblico. E o que é pior, desconfiamos do poder de Deus para operar a verdade mesmo no mundo de mentiras; para impor a luz em meio às trevas; para trazer justiça onde impera a injustiça. Isso é sinal de descrença, mesmo para os salvos.
Alguém pode dizer: “Não tenho nada com isso! Não me envolvo em política, nem quero nada com política. Apenas me preocupo com a proclamação do Evangelho de Cristo. Que cada um seja responsável pelo seu próprio erro!”... Alguém duvida que o ato de Pilatos lavar as mãos, quando da condenação do Senhor Jesus, não o isentou do pecado e da culpa? E de que seus interesses pessoais o levaram a não decidir pela absolvição do Justo e Santo? Seria essa atitude perdoável diante de Deus? Pedro diz que Pilatos, juntamente com Herodes, os gentios e os povos de Israel se ajuntaram contra Jesus, que foi preso, crucificado e morto pelas mãos de injustos [At 4.27, 2.23]. O “lavar as mãos” me parece uma atitude mais soberba e covarde do que a falsa acusação e a condenação injusta, pois aquele deseja se fazer limpo quando está sujo até o pescoço.
Ainda alguém poderá dizer: “Mas Cristo morreu por nós! Somos culpados da sua morte, também!”, o que é verdade. Acontece que esse deveria ser, mais do que um motivo, o melhor motivo para não apelarmos para a omissão, para a subida em um muro imaginário onde estaremos negando fazer o certo, e o que é pior, desobedecer o mandato que nos foi entregue de salgar e trazer luz ao mundo. Ou é possível iluminar o mundo colocando a luz debaixo da cama ao invés de elevá-la, para que todos vejam? [Mt 5.14-15]. Isso é indiferença ou apelar para a indiferença em relação à vida política como se ela não influenciasse e determinasse como andará a sociedade e o mundo; implica em se dar as costas à injustiça, à imoralidade como se não afetassem a vida das pessoas, trazendo-lhes danos; quando o nosso não envolvimento apenas diz o quanto somos egoístas e mesquinhos, e o quanto nos esforçamos em manter um ascetismo que não existe. Pelo contrário, a negligência em relação à política nos faz maldição quando deveríamos ser bênção também na vida pública, de tal forma que não poderemos olhar para o próximo e dizer que o amamos, sem parecer hipócritas.
Como já disse anteriormente, o Evangelho é um todo; uma parte não ficou no passado e outra pode ser aplicada hoje, para, talvez no futuro, nada disso ser relevante para a igreja e para o mundo. É o mesmo que picotar uma folha de papel e jogá-la do topo de um arranha-céu em meio à tempestade, e após terminada, descer e recolher os pedaços. A chance da folha não ser mais restabelecida em sua inteireza é praticamente certa. Por isso, alegar que certas partes da Bíblia não são requeridas em nosso tempo é torná-la irrelevante em todos os tempos. Não somos nós que escolhemos o que se deve obedecer ou não na Escritura, mas o próprio Deus diz que ela é toda “proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça” [2Tm 3.16]; e, de outra forma, se ela pode ser aplicada individualmente o que impede que seja aplicada coletivamente? Ou estamos dispostos a guardá-la em nosso íntimo a fim de não sermos responsáveis por ensinar, redargüir, corrigir e instruir em justiça? E, também, não sermos ensinados, redargüidos, corrigidos e instruídos em justiça? Não estaria assim assegurada a manutenção da independência e autonomia em relação à Palavra? É possível se apelar para a irresponsabilidade, para o autonegar-se à obrigação, e não rejeitá-la?
A queda elevou ao máximo a corrupção da alma humana, ao ponto do homem ser capaz de cometer crimes inimagináveis para satisfazer o seu prazer maligno. Contudo, Paulo afirma que temos a mente de Cristo, pois “o espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido” [1Co 2.15-16]; e o novo-nascimento nos dá isso: a oportunidade de exercer sabiamente os princípios que nos foram dados por Deus. E esse poder não estaria nas mãos de um homem, ou de um pequeno grupo de homens, mas do Corpo de Cristo. Mas aí entra a questão da unidade... de que nós não pensamos igualmente, e de que há muitas interpretações díspares entre os vários grupos de cristãos. Acontece que a lei é objetiva e clara em seus princípios. O que se quer é relativizá-los ao ponto em que negá-la se torna a opção mais fácil dentro de um pensamento essencialmente humanista e antibíblico. E assim o homem acaba por tomar em suas mãos o destino daquilo que é certo e errado, à revelia do padrão de Deus, o único que seguramente definiu o que é verdade e o que é mentira, como a negação da verdade.
Um dos versos mais usados para defender a “separação” entre Deus e o governo civil é a frase proferida por Cristo aos fariseus e herodianos, quando lhe apresentam a moeda de tributo [1]: “Daí pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” [Mt 22.21]. Mas essa distinção que o Senhor faz não seria, exatamente, por que o governo de César era antibíblico? Ao meu ver, o Senhor está dizendo: se vocês, hipócritas, fossem obedientes a Deus, não seriam servos de César, nem a ele deveriam tributos. Mas já que a moeda tem a esfinge de César, devei a ele a liberdade perdida; pois se são devedores de César, o que dirá de Deus? Se tivessem dado a Deus anteriormente, não teriam de dar agora a César... Porque, assim Paulo também disse: não é possível haver sociedade entre justiça e injustiça? E comunhão entre luz e trevas? E concórdia entre Cristo e Belial? Ou parte entre o fiel e o infiel? [2Co 6.14-15]... Ainda mais contundentemente: é possível o consenso entre o templo de Deus com os ídolos? [v.16]. Nesse aspecto, me parece claro que Cristo não está defendendo uma separação entre Deus e o governo civil, mas entre Deus e um governo ímpio e idólatra, pois onde o Senhor não é reverenciado e glorificado não é possível haver comunhão. Porém, se o governo de César fosse nitidamente bíblico, Cristo proferiria a mesma sentença? E, por quê? [2]
Deus, quando estabeleceu a lei, queria que o homem fosse governado por ele em sabedoria, justiça e santidade. Por isso estabeleceu juízes em Israel, e eles, ainda que pecadores, levaram ao povo a justiça proveniente da lei. Ao desejarem um rei, optaram pelo padrão humano de governo [o totalitarismo e a idolatria ganharam forma no monarca], e o que vemos agora é o mesmo padrão sendo sustentado e defendido por cristãos, e assim como os judeus fizeram, desprezam o bom conselho de Deus. Mas será dito: “Nunca houve um governo justo! Somente Cristo trará justiça à terra!”... Sim, certamente jamais houve um governo justo, e Cristo é a própria justiça, mas não será que essa “realidade” não passa de um subterfúgio para acomodar a indolência no seio da igreja? E a igreja como o Corpo não se desvincular do seu papel ao ponto de não andar segundo a vontade do cabeça? Mas se tudo é determinado por Deus, do que está se queixando? Afinal, os governos atuais não são instituídos, sustentados por ele? Paulo não disse que são todos ministros de Deus?... É o que se pensa e diz; porém, o que isso nos exclui da obediência? Em qual lugar está escrito: Disse Deus: como decretei a desobediência, estais livres para desobedecer?... Ou, ao contrário, somos chamados à submissão?
As tentativas de se justificar tal atitude são muitas, desde a descontinuidade da lei na Bíblia até o seu desuso e arcadismo, como se o fato do homem considerá-la indigna de si [numa inversão de valores] a tornasse irrealizável em seu propósito eterno e imutável. Quando se abre mão de Deus e sua justiça, do governo de Deus sobre o homem em todos os aspectos e sentidos da vida, este deixa-se guiar por outros deuses e pela injustiça, o que revelará a desordem e a iniqüidade não somente dos seus "deuses" mas de si mesmo. Por isso a Lei tem de ser retomada; a moral cristã tem de ser retomada; valores como ética têm de retomar ao seu devido lugar na sociedade; pois será através deles que a justiça se manifestará efetivamente, de forma prática, não apenas como um sonho utópico e intangível ou possível apenas na eternidade [nesse ambiente, o amor poderá ser visto e sentido, não apenas idealizado], não entre suposições e incertezas relativistas que apontam para lugar nenhum e nenhuma efetiva ação cristã na sociedade.
Sem a ordem divina, através da Lei, seus ensinamentos, orientações e sanções, o homem não deixará de ser o naúfrago sem qualquer bóia salva-vidas, a se ferir até o sangue em meio a um cardume de vorazes tubarões.
Nota: [1] O sistema monetário romano incluía o denário (denarius, em latim, plural denaris), uma pequena moeda de prata que era a de maior circulação no Império Romano [fonte: Wikipédia]. E isso me leva a crer que Cristo, ao indicar-lhes a esfinge de César, revelava que o produto da corrupção do povo e sua rebeldia contra Deus proporcionou que pertencessem a César, e assim fossem objetos da injustiça romana ao invés da justiça divina.
[2] Ora, a “separação” que Cristo faz é entre os valores de Deus e os valores humanos; entre os princípios perfeitos e eternos de Deus e os princípios imperfeitos e temporais do homem; entre o santo e o profano; de tal forma que se dê a Deus o que é de Deus, honra, glória e louvor, por sua plena justiça; e aos homens o que lhes é de direito, ainda que esse direito seja fruto da injustiça.
Há vários argumentos que são utilizados para a não aplicação da Lei divina no governo civil. Alguns alegam que o Estado é laico e, portanto, não tem de ter vínculo algum com religião alguma. Essa é uma grande conversa fiada, pois o Estado, a despeito de se dizer laico, age de maneira antireligiosa, como se fosse possível governar neutra e isentamente. O fato é que o Estado não é neutro, nem isento, e ao agir antireligosamente, em especial com relação ao Cristianismo, demonstra sua parcialidade, e o que é pior, uma autosuficiência que o coloca no lugar de Deus, como um ídolo, do qual até mesmo cristãos são adoradores. Vão dizer que não, o que simplesmente acontece é uma separação entre religião e Estado, mas, pergunto: quem autorizou essa separação? Em quais pressupostos ela aconteceu? Quem é o seu beneficiário?

Ao se fazer a separação arbitrária entre religião e Estado está-se tentando separar Deus do seu governo, como se fosse algo possível. Na verdade, o que existe é uma rejeição completa e total a qualquer idéia de Deus, mais detidamente o Deus bíblico, absoluto e Senhor de tudo o que foi criado e há no universo; e dessa forma o homem se considera autônomo, dono do seu nariz, independente de qualquer influência e autoridade divina. Quando o homem natural alega a “separação”, está a pensar e fazer algo que lhe é inerente, em sua corrupção, em seu senso moral caído, em seu prazer no pecado, ainda que esteja a dizer que não. Mas o que levaria um cristão a defender tal coisa? Ignorância, má-interpretação ou uma fé distorcida? Pode-se alegar que a história nos revela a nefasta ligação entre religião e Estado. Pode-se alegar que essa união nunca deu certo, e de que a “separação” é o melhor. O exemplo seria a teocracia islâmica, diria um defensor do laicismo. Mas pode o islamismo ser padrão moral e ético para um cristão? O próprio fato dos países islâmicos não serem cristãos, nem se pautarem na lei divina, já revela que seus princípios e premissas são falsos e o governo em si mesmo é falso e culpado em sua ilegalidade. Por ser uma mentira, um embuste, não pode ser parâmetro para um governo levado à cabo pela legitimidade da lei divina. Da mesma forma, o catolicismo não pode servir de medida comparativa. Assim como qualquer governo que se abstenha da lei para se livrar de Deus.

Apelar também para o efeito noético do pecado parece-me uma válvula de escape que não livra o homem de sua responsabilidade. Seria o mesmo que um ladrão justificar o seu crime porque não conseguiu resistir a possuir o objeto do furto. O objetivo é garantir a impossibilidade de aplicar-se a lei, não porque ela falha em alguma coisa; não porque ela não é o padrão verdadeiro de justiça; não porque haja algo melhor que ela; não que seja imperfeita em algum aspecto; mas porque somos incapazes de torná-la apropriada e eficaz em sua praticabilidade. Em linhas gerais, fazemos como os fariseus que ao tentarem se mostrar inocentes em relação aos seus pais que derramaram o sangue dos profetas, acabaram por encher as medidas deles, testificando serem filhos de assassinos [Mt 23.30-32]. Ao acusarmos aqueles que não foram capazes de governar adequadamente segundo o padrão divino, justificando assim a nossa própria incapacidade, enchemos as medidas deles ao nos tornarmos herdeiros do seu legado não-bíblico. E o que é pior, desconfiamos do poder de Deus para operar a verdade mesmo no mundo de mentiras; para impor a luz em meio às trevas; para trazer justiça onde impera a injustiça. Isso é sinal de descrença, mesmo para os salvos.

Alguém pode dizer: “Não tenho nada com isso! Não me envolvo em política, nem quero nada com política. Apenas me preocupo com a proclamação do Evangelho de Cristo. Que cada um seja responsável pelo seu próprio erro!”... Alguém duvida que o ato de Pilatos lavar as mãos, quando da condenação do Senhor Jesus, não o isentou do pecado e da culpa? E de que seus interesses pessoais o levaram a não decidir pela absolvição do Justo e Santo? Seria essa atitude perdoável diante de Deus? Pedro diz que Pilatos, juntamente com Herodes, os gentios e os povos de Israel se ajuntaram contra Jesus, que foi preso, crucificado e morto pelas mãos de injustos [At 4.27, 2.23]. O “lavar as mãos” me parece uma atitude mais soberba e covarde do que a falsa acusação e a condenação injusta, pois aquele deseja se fazer limpo quando está sujo até o pescoço.

Ainda alguém poderá dizer: “Mas Cristo morreu por nós! Somos culpados da sua morte, também!”, o que é verdade. Acontece que esse deveria ser, mais do que um motivo, o melhor motivo para não apelarmos para a omissão, para a subida em um muro imaginário onde estaremos negando fazer o certo, e o que é pior, desobedecer o mandato que nos foi entregue de salgar e trazer luz ao mundo. Ou é possível iluminar o mundo colocando a luz debaixo da cama ao invés de elevá-la, para que todos vejam? [Mt 5.14-15]. Isso é indiferença ou apelar para a indiferença em relação à vida política como se ela não influenciasse e determinasse como andará a sociedade e o mundo; implica em se dar as costas à injustiça, à imoralidade como se não afetassem a vida das pessoas, trazendo-lhes danos; quando o nosso não envolvimento apenas diz o quanto somos egoístas e mesquinhos, e o quanto nos esforçamos em manter um ascetismo que não existe. Pelo contrário, a negligência em relação à política nos faz maldição quando deveríamos ser bênção também na vida pública, de tal forma que não poderemos olhar para o próximo e dizer que o amamos, sem parecer hipócritas.

Como já disse anteriormente, o Evangelho é um todo; uma parte não ficou no passado e outra pode ser aplicada hoje, para, talvez no futuro, nada disso ser relevante para a igreja e para o mundo. É o mesmo que picotar uma folha de papel e jogá-la do topo de um arranha-céu em meio à tempestade, e após terminada, descer e recolher os pedaços. A chance da folha não ser mais restabelecida em sua inteireza é praticamente certa. Por isso, alegar que certas partes da Bíblia não são requeridas em nosso tempo é torná-la irrelevante em todos os tempos. Não somos nós que escolhemos o que se deve obedecer ou não na Escritura, mas o próprio Deus diz que ela é toda “proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça” [2Tm 3.16]; e, de outra forma, se ela pode ser aplicada individualmente o que impede que seja aplicada coletivamente? Ou estamos dispostos a guardá-la em nosso íntimo a fim de não sermos responsáveis por ensinar, redargüir, corrigir e instruir em justiça? E, também, não sermos ensinados, redargüidos, corrigidos e instruídos em justiça? Não estaria assim assegurada a manutenção da independência e autonomia em relação à Palavra? É possível se apelar para a irresponsabilidade, para o autonegar-se à obrigação, e não rejeitá-la?

A queda elevou ao máximo a corrupção da alma humana, ao ponto do homem ser capaz de cometer crimes inimagináveis para satisfazer o seu prazer maligno. Contudo, Paulo afirma que temos a mente de Cristo, pois “o espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido” [1Co 2.15-16]; e o novo-nascimento nos dá isso: a oportunidade de exercer sabiamente os princípios que nos foram dados por Deus. E esse poder não estaria nas mãos de um homem, ou de um pequeno grupo de homens, mas do Corpo de Cristo. Mas aí entra a questão da unidade... de que nós não pensamos igualmente, e de que há muitas interpretações díspares entre os vários grupos de cristãos. Acontece que a lei é objetiva e clara em seus princípios. O que se quer é relativizá-los ao ponto em que negá-la se torna a opção mais fácil dentro de um pensamento essencialmente humanista e antibíblico. E assim o homem acaba por tomar em suas mãos o destino daquilo que é certo e errado, à revelia do padrão de Deus, o único que seguramente definiu o que é verdade e o que é mentira, como a negação da verdade.

Um dos versos mais usados para defender a “separação” entre Deus e o governo civil é a frase proferida por Cristo aos fariseus e herodianos, quando lhe apresentam a moeda de tributo [1]: “Daí pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” [Mt 22.21]. Mas essa distinção que o Senhor faz não seria, exatamente, por que o governo de César era antibíblico? Ao meu ver, o Senhor está dizendo: se vocês, hipócritas, fossem obedientes a Deus, não seriam servos de César, nem a ele deveriam tributos. Mas já que a moeda tem a esfinge de César, devei a ele a liberdade perdida; pois se são devedores de César, o que dirá de Deus? Se tivessem dado a Deus anteriormente, não teriam de dar agora a César... Porque, assim Paulo também disse: não é possível haver sociedade entre justiça e injustiça? E comunhão entre luz e trevas? E concórdia entre Cristo e Belial? Ou parte entre o fiel e o infiel? [2Co 6.14-15]... Ainda mais contundentemente: é possível o consenso entre o templo de Deus com os ídolos? [v.16]. Nesse aspecto, me parece claro que Cristo não está defendendo uma separação entre Deus e o governo civil, mas entre Deus e um governo ímpio e idólatra, pois onde o Senhor não é reverenciado e glorificado não é possível haver comunhão. Porém, se o governo de César fosse nitidamente bíblico, Cristo proferiria a mesma sentença? E, por quê? [2]

Deus, quando estabeleceu a lei, queria que o homem fosse governado por ele em sabedoria, justiça e santidade. Por isso estabeleceu juízes em Israel, e eles, ainda que pecadores, levaram ao povo a justiça proveniente da lei. Ao desejarem um rei, optaram pelo padrão humano de governo [o totalitarismo e a idolatria ganharam forma no monarca], e o que vemos agora é o mesmo padrão sendo sustentado e defendido por cristãos, e assim como os judeus fizeram, desprezam o bom conselho de Deus. Mas será dito: “Nunca houve um governo justo! Somente Cristo trará justiça à terra!”... Sim, certamente jamais houve um governo justo, e Cristo é a própria justiça, mas não será que essa “realidade” não passa de um subterfúgio para acomodar a indolência no seio da igreja? E a igreja como o Corpo não se desvincular do seu papel ao ponto de não andar segundo a vontade do cabeça? Mas se tudo é determinado por Deus, do que está se queixando? Afinal, os governos atuais não são instituídos, sustentados por ele? Paulo não disse que são todos ministros de Deus?... É o que se pensa e diz; porém, o que isso nos exclui da obediência? Em qual lugar está escrito: Disse Deus: como decretei a desobediência, estais livres para desobedecer?... Ou, ao contrário, somos chamados à submissão?

As tentativas de se justificar tal atitude são muitas, desde a descontinuidade da lei na Bíblia até o seu desuso e arcadismo, como se o fato do homem considerá-la indigna de si [numa inversão de valores] a tornasse irrealizável em seu propósito eterno e imutável. Quando se abre mão de Deus e sua justiça, do governo de Deus sobre o homem em todos os aspectos e sentidos da vida, este deixa-se guiar por outros deuses e pela injustiça, o que revelará a desordem e a iniqüidade não somente dos seus "deuses" mas de si mesmo. Por isso a Lei tem de ser retomada; a moral cristã tem de ser retomada; valores como ética têm de retomar ao seu devido lugar na sociedade; pois será através deles que a justiça se manifestará efetivamente, de forma prática, não apenas como um sonho utópico e intangível ou possível apenas na eternidade [nesse ambiente, o amor poderá ser visto e sentido, não apenas idealizado], não entre suposições e incertezas relativistas que apontam para lugar nenhum e nenhuma efetiva ação cristã na sociedade.

Sem a ordem divina, através da Lei, seus ensinamentos, orientações e sanções, o homem não deixará de ser o naúfrago sem qualquer bóia salva-vidas, a se ferir até o sangue em meio a um cardume de vorazes tubarões.

Nota: [1] O sistema monetário romano incluía o denário (denarius, em latim, plural denaris), uma pequena moeda de prata que era a de maior circulação no Império Romano [fonte: Wikipédia]. E isso me leva a crer que Cristo, ao indicar-lhes a esfinge de César, revelava que o produto da corrupção do povo e sua rebeldia contra Deus proporcionou que pertencessem a César, e assim fossem objetos da injustiça romana ao invés da justiça divina.

[2] Ora, a “separação” que Cristo faz é entre os valores de Deus e os valores humanos; entre os princípios perfeitos e eternos de Deus e os princípios imperfeitos e temporais do homem; entre o santo e o profano; de tal forma que se dê a Deus o que é de Deus, honra, glória e louvor, por sua plena justiça; e aos homens o que lhes é de direito, ainda que esse direito seja fruto da injustiça.

Jorge Fernandes

Comentários

Receba as Novidades

Receba as novidades gratuitamente via Email ou Feed RSS.

Receba por Email

Assinantes

Redes Sociais

Enquete do Mês

Eu acredito que a salvação é...



Divulgue


 


Usuários Online

Nós temos 3 visitantes online

Pesquise

Você está aqui:   InícioArtigos TeológicosCristianismo, Estado e Justiça - 03: Separação entre Deus e governo civil?

Ir para o topo ↑